Falas de Orgulho: Conheça Mario Leony, personagem do especial da Globo.

“Falas de Orgulho” é o especial da Globo que vai ao ar no dia 28 de junho, Dia Internacional do Orgulho LGBT e contará a jornada de 8 personagens, sobre suas superações, preconceito e auto aceitação.

Mario Leony é uma dessas pessoas que serão homenageadas no especial. Ele é Delegado Civil em Sergipe e defende que é preciso ressignificar o papel da polícia no Brasil: “Temos que passar a limpo essa imagem truculenta que foi construída na ditadura militar. Os órgãos de segurança pública foram forjados no machismo institucional, no racismo estrutural e na LGBTfobia”, opina o delegado.

Mario é delegado há mais de 20 anos e durante muito tempo teve medo do preconceito na sua profissão: “Quando entrei, achava que a academia de polícia não podia saber que eu era gay. Eu precisava controlar meus gestos e me envolvia menos com os meus colegas. A homofobia nos aparta”, relembra.

Pesado, né? Ele só se assumiu em 2007, em um seminário no Rio de Janeiro. Depois de 3 anos, em 2010, ele passou a usar sua voz para lutar contra a LGBTfobia e virou co-fundador da Rede Nacional de Operadores de Segurança Pública, que foi criada para combater o preconceito nos órgãos de segurança pública e garantir a liberdade de orientação sexual e de identidade de gênero.

A história dele é linda, é casado desde 2015 com Sérgio Fernandes e hoje esperam sua vez na fila de adoção. Confira abaixo a entrevista completa com Mário e não esquece que o especial vai ao ar no dia 28 de julho. Você não perde por esperar!

Conte um pouco da sua infância e de quando passou a se entender LGBT.

Eu nasci em Salvador e por lá estudei em colégios religiosos, fui catequizado e fiz primeira comunhão. Eu era um menino muito franzino e andrógeno. Tenho a recordação de as pessoas apontarem pra mim e perguntarem “é menino ou menina?” e eu não tinha forças para reagir. Quando a sexualidade começou a aflorar em mim, dos 9 aos 10 anos, ela já era direcionada ao sexo masculino. E eu me sentia muito estranho, achava que não era normal. As relações homoafetivas não eram abertas e o único modelo possível era o heterossexista. Com a formação religiosa, me sentia um pecador. Eu tinha culpa e pedia a Deus para que isso parasse de acontecer.

E como a sua família encarou a sua sexualidade?

Meu pai era muito machista e muito boêmio. Eu tinha uma dificuldade muito grande de acessar esse universo dele. Não me sentia atraído pelos bares, pelas rinhas de galo e estádio de futebol. Sempre houve um abismo entre nós e ele já vislumbrava a minha orientação sexual, mas não aceitava. Já a minha mãe descobriu por conta de um “ato falho”. Nós tínhamos uma relação muito intensa e foi muito difícil quando me deparei com a reação dela. Eu estava na faculdade e esqueci o rascunho de uma carta que escrevi para o meu namorado da época da faculdade. Ela viu esse rascunho e ficou chocada, me disse um monte de desaforos. A minha sorte é que eu já tinha conversado sobre a minha sexualidade com a minha irmã, que conseguiu segurar a onda. Minha mãe passou três dias chorando.

Atualmente você é casado. Vocês têm vontade de ter filhos? Tem algum receio por ser LGBT?

Sim, estamos grávidos! Há três anos fomos habilitados para adoção e estamos nessa expectativa. Eu fico apreensivo com o fato dessa criança vir a sofrer com homofobia. A nossa comunidade ainda tem muito pelo que lutar. Somos um dos países que mais mata LGBTs no mundo. Por outro lado,  acho que foi fundamental a comunidade LGBT ter despertado para a luta coletiva e as conquistas que tivemos devem ser celebradas. Eu e Serginho, por exemplo, nos conhecemos em 2007, mas foi só em 2011 que tivemos direito ao casamento – o que é surreal. Esses direitos não caíram do céu, são frutos de muita luta e precisamos celebrar, sim. Mas nunca esquecer que ainda temos muito o que conquistar.

Quanto à sua profissão, chegou a ter medo de expor a sua sexualidade na corporação?

Quando entrei, achava que a academia de polícia não podia saber que eu era gay. Eu precisava controlar meus gestos, me envolvia menos com os meus colegas. A homofobia nos aparta. O momento que foi um divisor de águas foi quando declarei publicamente a minha sexualidade em um seminário no Rio de Janeiro, em 2007. Em um cargo como o meu, essa declaração me trouxe algumas noites perdidas. Mas foi libertador. Mudou a minha relação com o meu trabalho, com a minha família e até mesmo com a imprensa. Tudo mudou para melhor. Hoje, milito em alguns coletivos e, desde 2010, tenho muito orgulho de ser co-fundador da RENOSP LGBTI.

E como você vê o papel da polícia na luta contra a LGBTfobia?

Há várias formas de pensarmos no papel da polícia. O regimento da polícia de Minas, por exemplo, cita o nosso trabalho como “pedagogos da cidadania”. Na RENOSP, somos debruçados em protocolos e em recomendações para abordagens e revistas. Infelizmente, nem todos respeitam. É muito triste quando recebemos relatos de meninos trans da periferia que, quando começam a transição, passam a ter que conviver com hostilidades da polícia, que são seletivas e truculentas. Ainda existe um hermetismo muito grande na corporação, uma dificuldade de ouvir o clamor da sociedade civil organizada. É muito comum os colegas se ressentirem e dizerem que a sociedade não reconhece o nosso trabalho. Mas como é que vão reconhecer se a gente, muitas vezes, é arrogante? Precisamos ressignificar o papel da polícia. Temos que passar a limpo essa imagem truculenta que foi construída na ditadura militar. Os órgãos de segurança pública foram forjados no machismo institucional, no racismo estrutural e na LGBTfobia.

 

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