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Avatar: Fogo e Cinzas | Review: Cameron encontra beleza no caos, mas teme seu próprio mito!

Em Avatar: Fogo e Cinzas ou Avatar 3 da 20th Century Studios da Disney, James Cameron (Titanic) retorna a Pandora com a segurança de quem ajudou a redefinir o cinema-espetáculo, mas também com a inquietação de quem sabe que sua saga precisa começar a avançar em novas direções. O terceiro capítulo não se esforça mais para nos convencer de que Pandora é grandiosa; esse mundo já está consolidado no imaginário coletivo. O que realmente move o filme é a rachadura emocional que atravessa seus personagens e é dessa colisão entre vulnerabilidade e espetáculo que nasce o capítulo mais visceral da franquia.

A narrativa começa imediatamente após O Caminho da Água, ainda abafada pelo luto de Neteyam. A família Sully se move como quem tenta respirar em atmosfera rarefeita: Jake (Sam Worthington) dividido entre liderança e arrependimento; Neytiri (Zoë Saldaña) consumida por uma fúria que parece irreversível; os filhos perdidos entre expectativas e traumas; e Spider, mais deslocado do que nunca, como se a dor alheia amplificasse a própria condição de “intruso permanente”.

Cameron inicia esse mergulho emocional com sensibilidade, mas hesita na hora de cruzar limites mais definitivos. Ele provoca tensões, mas recua antes que elas se tornem rupturas. É um dilema recorrente na franquia: o drama promete abismos, mas a estrutura narrativa busca sempre um terreno seguro. Ainda assim, o primeiro ato é um dos mais fortes já criados para Pandora.

A presença mais revigorante da trama é Varang (Oona Chaplin). Sua figura magnetiza a tela — não só pelo visual abrasivo do Povo das Cinzas, mas pelo conceito que representam: uma comunidade moldada pelo ressentimento, pela ruína e pela perda de propósito espiritual. Pela primeira vez, a franquia explora um antagonismo Na’vi que não se apoia no simples contraste moral, mas numa ferida religiosa e existencial. É um passo ousado, e necessário.

A dinâmica entre Varang e Quaritch traz um frescor inesperado. Não se trata de romance, mas de uma convergência ideológica sombria. Ambos são personagens à margem de suas próprias comunidades, movidos por feridas não suturadas. Stephen Lang continua a ser uma das forças dramáticas de Avatar, mas a insistência de Cameron em manter Quaritch dentro de um ciclo repetitivo enfraquece o impacto do personagem. O vilão evolui, mas a narrativa não o acompanha.

Se os adultos parecem presos à própria mitologia, Fogo e Cinzas entrega aos mais jovens a verdadeira renovação da franquia. Kiri (Sigourney Weaver) enfim assume um protagonismo emocional e espiritual que antes era apenas sugerido. Sua conexão com Eywa deixa de ser uma intuição e se transforma em poder tangível — possivelmente até arriscado. Já Spider (Jack Champion) vive a transformação mais radical: sua transição simbólica e física faz dele o primeiro híbrido real de Pandora, redefinindo as bases do universo.

No campo ambiental, Cameron abandona qualquer verniz interpretativo. A sequência de caça aos Tulkuns é brutal e filmada para provocar indignação. É o momento em que a franquia deixa de alegorizar e abraça a denúncia direta, ainda que repita ecos temáticos já explorados. Mick Scoresby retorna como caricatura do capitalismo voraz e ganha uma morte que arranca aplausos da plateia, um raro instante de catarse em um filme tão marcado por tensões.

No entanto, apesar de grandioso, o filme carrega um leve déjà vu. A engrenagem dramática é eficiente, mas previsível. Visualmente, é um assombro; emocionalmente, potente; narrativamente, um pouco contido demais para quem esperava uma verdadeira ruptura.

Avatar: Fogo e Cinzas é um espetáculo completo. Mas é também o lembrete de que, para que a saga permaneça tão viva quanto Pandora, Cameron precisará, em algum momento, quebrar o próprio mito.

Assista ao trailer: 

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