A real é que muita gente ainda acha que endometriose é “coisa de mulher adulta”, mas os sinais podem dar as caras bem antes, ainda na adolescência. E o alerta é sério: um estudo publicado no Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, com base em dados do SUS, identificou 1.192 internações por endometriose em adolescentes de 10 a 19 anos no Brasil entre 2014 e 2024. A faixa de 15 a 19 anos concentrou 1.046 casos, enquanto 39 ocorrências foram registradas em crianças de até 9 anos.
O dado que mais chama atenção é o famoso “delay” no diagnóstico. Segundo a SOGESP (Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de São Paulo), meninas que começam a sentir sintomas até os 19 anos demoram, em média, 12,1 anos para receber o diagnóstico correto. Já entre mulheres cujos sintomas aparecem depois dos 30, esse tempo cai para 3,3 anos. Traduzindo: muita adolescente passa anos ouvindo que “cólica forte é normal” quando, na verdade, pode estar convivendo com uma doença crônica.
A dismenorreia, aquela cólica menstrual pesada que derruba qualquer rolê, é o sintoma mais comum nessa idade e pode atingir de 50% a 90% das adolescentes. Como a dor acaba sendo normalizada por famílias e até por profissionais de saúde, o problema vai sendo empurrado com a barriga.
Para o ginecologista Dr. Thiers Soares, referência no tratamento de endometriose, adenomiose e miomas, a conta chega lá na frente. “A mulher adulta com endometriose foi, quase sempre, uma adolescente com dor que não foi ouvida. Quando a cólica intensa é tratada como um rito de passagem da puberdade, perdemos anos preciosos de investigação”, explica o médico.
⚠️ Quando a cólica deixa de ser “normal”?
Segundo o especialista, alguns sinais funcionam como bandeira vermelha e merecem atenção imediata:
- cólica que impede a adolescente de ir à escola;
- dor pélvica fora do período menstrual;
- dor ao evacuar ou urinar durante a menstruação;
- sangramento menstrual muito intenso.
Ou seja, não é sobre entrar em pânico a cada cólica, mas também não dá para ignorar uma dor que trava a rotina. “Ensinar as meninas a diferenciar desconforto esperado de dor incapacitante evita anos de sofrimento silencioso e pode proteger a saúde reprodutiva no futuro”, reforça o Dr. Thiers Soares.
🩺 Tratamento é tipo trabalho em equipe
O tratamento na adolescência costuma ser multidisciplinar: acompanhamento ginecológico, terapia hormonal para controlar o ciclo e reduzir o crescimento do tecido endometrial fora do útero e suporte psicológico para lidar com o impacto emocional e social da doença. Em casos mais graves, pode ser necessária cirurgia minimamente invasiva, sempre buscando preservar a fertilidade futura.
Como a endometriose é uma doença crônica e pode voltar mesmo após o tratamento, o acompanhamento médico precisa continuar ao longo da vida reprodutiva. “Quanto antes identificamos a doença, maior a chance de controlar os sintomas, evitar cirurgias mais complexas e preservar a fertilidade dessa jovem”, destaca o especialista.
O médico defende que escolas, pediatras e ginecologistas formem uma verdadeira rede de escuta ativa para adolescentes que relatam dor menstrual incapacitante. Em vez de ouvir “isso passa”, essas meninas precisam ser investigadas. Porque sentir dor todo mês a ponto de perder aula, treino, rolê ou ficar de cama não é frescura — é sinal de que o corpo pode estar pedindo ajuda.
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